sábado, 1 de outubro de 2022

Nessuferat ou o "não sofrer"

Em 2019 passei a desenvolver o hábito de escrever um diário, uma forma de registrar alguns momentos da minha vida. Isso ocorreu depois que assisti um vídeo do professor Rodrigo Gurgel no qual ele recomendava esse tipo de atividade, que atualmente é algo que me ajuda a manter a mente devidamente ocupada – e o faço como forma de terapia, depois de passar por um evento traumático.

Ao reler alguns trechos, achei uma passagem interessante e então resolvi compartilhar aqui no blog.

Esse registro foi feito no primeiro semestre de 2020, período em que ainda não tinha sido declarada a tal "pandemia" da covid19. Para a leitura, recomendo essa trilha: Resident Evil 2 - Save Room 

20 de Fevereiro de 2020

Sábado passado (dia 15) fui assistir um filme no Cine Olympia, que hoje em dia é um museu e tombado como patrimônio histórico da minha cidade. Fui com a "L", uma amiga que conheci no período em que fiz estágio no [...] da capital.

Que sensação boa, pois foi como voltar no tempo, quando os cinemas de rua estavam por aí, diferente de hoje em dia, em que todos praticamente estão dentro dos shoppings. Existem poucos cinemas de rua no país, são cada vez mais raros... é o tal do "progresso" que vai soterrando tudo.

Assisti muitos filmes no Olympia, isso antes dele virar museu. Quando criança, cheguei a assistir alguns filmes dos Trapalhões. O cine Olympia foi fundado em 24 de Abril de 1912. Atualmente, por ser um museu, ele não recebe os filmes da grade comercial; logo, há apenas exibição de obras de fora da grade convencional: tem a temporada de filmes nacionais, clássicos do cinema estrangeiro e até festival de produções independentes. Outro detalhe interessante, é que a entrada é franca.

Nesse dia em que fui com a "L", nós assistimos Nosferatu  O Vampiro da Noite (Nosferatu – Phantom der Nacht), obra do cineasta Werner Herzog, de 1979. Esse filme é uma produção francesa e alemã, e trata-se de uma adaptação do clássico do expressionismo alemão Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror (Nosferatu  Eine Symphonie des Graunes), de Friedrich Wihelm Murnau, de 1922.

O filme de 1979 tem algumas alterações dada a licença poética. Uma delas é que o Nosferatu não se chama Conde Orlok, como é chamado no filme do Murnau, sendo que esse foi um nome criado por Murnau não deter os direitos autorais da obra Drácula, de Bram Stoker.

Outro detalhe que me causou um certo impacto – e eu diria até um certo incômodo , é a cena em que a criatura chega na cidade. Em resumo, ao chegar em Wismar, o Nosferatu traz consigo a morte através de pragas. A cidade vai aos poucos se tornando uma cidade fantasma, permanecendo assim até que a maldição do Nosferatu seja desfeita  ou seja, até que seja eliminado.

Durante essa cena a morte vai se tornando cada vez mais gradativa e comum na cidade, fazendo com que as pessoas se tornem apáticas e até mesmo confusas em relação à calamidade que se instaurou. Elas ficam vagando pelas ruas sem saber o que fazer, os caixões vão tomando conta dos espaços públicos e a vida parece te se tornado sem sentido.

Isso me fez pensar, ao ver as pessoas sem ânimo, naquela teoria do vampirismo energético: indivíduos que são capazes de subtrair/absorver a energia vital e emocional de terceiros. Não que eu acredito, mas lembrei de imediato disso.

Mas o que me deixou mais inquieto, foi a similaridade com o cenário atual – ou o que ele pode vir a se tornar. A covid está em nosso país, uma praga que chegou em nosso território e que veio do estrangeiro (China). Por se tratar de um novo tipo de coronavírus, óbvio que teremos mortes. Ainda não se sabe a letalidade do vírus, há poucos casos de infectados; mas o que me preocupa é que ainda não temos uma imunidade natural. Enfim, essa cena me pareceu o vislumbre de algo.

Além disso, estive pensando sobre a origem e significado da palavra "Nosferatu", então fiz algumas pesquisas. A palavra que ficou conhecida como sinônimo de "vampiro", ela não é de origem romena de onde advém o Vlad III, o Vlad Tepes da família Dracúl, que dá origem ao nome "Drácula" na obra de Bram Stoker  e nem mesmo tem origem húngara. Trata-se de uma variação da palavra "Nessuferat", que significa "não sofrer" – sofrimento alheio, de origem latina. Foi utilizada por escritores alemães por volta de 1889 para servir como sinônimo de "vampiro", palavra essa que tem origem romena: "vámpir".

Ainda sobre o Nosferatu, não foi a primeira vez que assisti esse filme; porém dessa vez, ao ver as cenas da cidade tomada pela morte, aquele povo desolado e a presença sorrateira da criatura deleitando-se com aquela calamidade, aquilo me causaram um certo desconforto... na verdade, uma sensação de que algo muito ruim está para acontecer. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Todos os comentários serão lidos e sempre que possível respondidos.